RESENHA CRÍTICA
PARAÍBA, MULHER MACHO, TESSITURAS DE GÊNERO, (DESA)FIOS DA HISTÓRIA.
Alômia Abrantes é Doutora em História, professora adjunta do Departamento de História da Universidade Estadual da Paraíba.Interessa-se, especialmente, pelas análises que envolvem imprensa e imagem.
Em Anayde Beiriz e
a (re)invenção da “Mulher-macho”, primeiro capítulo de Paraíba, Mulher
Macho: tessituras de gênero, (desa)fios da História, (Paraíba, século XX),
tese apresentada em 2008 ao Curso de Pós-Graduação em História da Universidade
Federal de Pernambuco, como requisito parcial para obtenção do título de
Doutor(a), Alômia Abrantes se propõe a analisar as produções discursivas, tais
como músicas e filmes, que de um modo ou de outro tornaram possível a
emergência, no decorrer do século XX, da ideia, ou imagem, da “Paraíba, Mulher
Macho” como sendo formadora de uma identidade com o Estado e mulheres da
Paraíba. Segundo a própria autora seu texto consiste numa “operação narrativa
que coloca em cena embates em torno da história, enquanto lócus constituído e
constituinte de lugares e imagens de gênero.” (ABRANTES, 2008, p 7) . Assim,
temos um destaque à figura de Anayde Beiriz, poetiza e professora paraibana que
viveu no início do século XX e que é símbolo dessa expressão “Paraíba, Mulher
Macho”. Isso se deve, em grande medida, em virtude da produção de um filme, nos
anos 80, com o mesmo título, que narra a vida dessa personalidade.
De início a autora nos coloca a
música Paraíba, composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, de 1950,
como sendo uma produção que “marca” a mulher paraibana como “macho”, sendo alvo
de muitas críticas ainda hoje. A música se insere num contexto de disputas
políticas no Estado, momento de maior visibilidade de sua política. Desse modo,
nos diz a autora que isso remete à projeção de signos, que colam, mais
intensamente na região e nas mulheres nela nascidas, as marcas da honra, da
combatividade e resistência. Ou seja, a mulher paraibana é descrita como guerreira,
cheia de coragem, capaz de enfrentar inúmeros problemas como, por exemplo, as
grandes secas. Daí a denominação “Paraíba, Mulher Macho”.
Inspirada na teoria foucaultiana da
noção de arqueologia, segunda a qual o saber é domínio privilegiado, Alômia diz
que tratar de gênero é pensar em como os espaços masculinos e femininos foram
instituídos histórico e culturalmente em diferentes épocas e sociedades.
Ademais, é pensar não apenas nos lugares, mas nas subjetivações, nas sujeições
que permitem a identificação das pessoas como homens ou mulheres.
A partir da leitura do texto
percebemos que Alômia faz alguns recortes de imagens que entraram em evidência
nas últimas décadas do século XX, sobretudo os anos 1980. Assim, ela nos mostra
que nesse contexto o cinema, a literatura, a imprensa e a historiografia,
passam a investir numa nova encarnação do conceito “mulher-macho”. Ao tratar do
filme Paraíba, Mulher Macho, dirigido
por Tizuka Yamazaki ela diz que a figura de Anayde Beiriz, uma vez tendo vivido
no início do século e morrido em condições dramáticas, além de ser conhecida
pela sua postura de vanguarda, por defender direitos para as mulheres e agir na
contramão dos ideais normativos da conduta feminina, é redimensionada e tecida
ao sabor de novos valores, que vêm se chocar com as visões mais tradicionais da
intelectualidade e da política no Estado.
Segundo a autora, o filme dirigido por Tizuka Yamazaki,
produzido ainda durante a ditadura militar, é considerado para a época um marco
que representa a retomada do cinema brasileiro após longos anos de forte
censura. Assim como a música de Luíz Gonzaga, o filme é uma produção que traz à
tona a memória dos acontecimentos de 1930 na Paraíba. Entretanto, sua narrativa é um tanto quanto diferente, pois é
feita a partir da vida de uma mulher considerada ousada para a sua época, a
professora e escritora Anayde Beiriz.
Anayde é tida no filme como sendo personagem principal,
mostrada como ocupante de lugares considerados culturalmente como sendo próprios
para o masculino da época. Diante disso, do fato de essa mulher ter uma imagem
produzida no sentido de aumentar a associação da identidade da mulher e do
Estado com a “mulher-macho”, começam a surgir uma série de inquietações e
angústias, intensificando o debate sobre os acontecimentos da revolução de 30.
Debate esse que dá mais visibilidade a outros signos políticos, principalmente
os que instituem e legitimam lugares fixos para homens e mulheres. Assim sendo,
Alômia utiliza-se da narrativa do filme para trazer à tona as questões que
tornaram possível a intenção de colocar Anayde Beiriz como ícone de um
movimento que sua época começava a experimentar. Será, portanto, colocada como
“mártir” de uma disputa política na qual não existem evidências de sua participação
direta. É tida, também, como heroína de uma revolução dos costumes, como um
corpo marcado pela ambivalência de ser um duplo, de ser uma “mulher-macho”.
Assim, sendo intensamente inscrita na (re)afirmação de uma imagem identitária,
que ao longo do tempo tornou-se um corpo espacial, uma paisagem, a da própria
Paraíba.
Vale salientar, contudo, que para muitos historiadores
Anayde não é tida como um personagem político. Ela relacionou-se com um homem
influente da política paraibana, e só. A título de exemplo a autora cita José
Otávio de Arruda e Mello que de acordo com suas pesquisas concluiu que Anayde
Beiriz teve pouca, ou quase nenhuma significância, para a revolução de 1930.
Ela teria ocupado uma “lateralidade”, o que não permite que ela seja
considerada uma personagem política. A justificativa para essa afirmativa seria
o fato de na extensa massa documental sobre o movimento não se encontrar quase
nada sobre ela.
Interessante, ainda, é fato de a autora olhar o filme
dirigido por Tizuka Yamazaki como uma possibilidade de pensar Anayde Beiriz
enquanto corpo. Para ela, o primeiro indício disso é o fato de que no cartaz do
filme, mais especificamente no logotipo do título, o “M” da palavra “macho” é
justamente desenhado como sendo as pernas abertas de uma mulher, supostamente
deitada. Aberta para o olhar que a contempla, insinua um convite para uma
intimidade ou, ainda, uma publicização da intimidade. Um convite ao corpo que
“encarna” a transgressora, a “mulher-macho”, que é tatuada na pele imortalizada
da professora. Ela diz:
Em praticamente todas as cenas do filme temos
uma Anayde Beiriz corpórea, no sentido em que expressa e procura saciar
impulsos e desejos, que lhe parecem prementes, com uma força instintiva, como
que livre de dilemas, de apelos morais e hesitações que seriam comuns à sua
época. A personagem se entrega a dança, se declara nos poemas que declama,
junta-se aos homens e, sobretudo, ama com uma avidez considerada extrema pelos
outros que personificam seu tempo. É uma personagem que ri sem discrição e o
seu riso parece soar como gritos inconvenientes, como sinal de uma natureza
indomada. Numa certa percepção, é como se não “filtrasse” os impulsos e as
necessidades corpóreas. Ela sente e, com intensidade, age no fluxo das suas
emoções. Neste sentido, na tela, pode-se dizer que ela “queima” (ABRANTES,
2008, p. 33).
No último sub-item do capítulo,
intitulado Anayde e a “encarnação” da
verdade (ou quantas vidas pode um corpo que não morreu?), Alômia
suscita uma discussão acerca de diferentes vertentes que tratam do que seria e
do que não seria verdade em se tratando da figura de Anayde Beiriz. Assim, nos
é mostrado, de um lado, o livro João
Dantas e Anayde Beiriz: Vidas diferentes, Destinos desiguais, escrito por
Maria de Lurdes Luna, e de outro, o artigo Remexendo
na História: O “Assanhamento” de Anayde, de Augusto Magalhães. Segundo a
autora o livro de Lurdes é uma obra que em certa medida tenta fazer uma defesa
de Anayde, discordando de escritos de José Joffily e do filme dirigido por Tizuka
Yamazaki, que a colocam enquanto uma mulher assanhada e dotada de
comportamentos incomuns à sua época. Já o artigo de Magalhães traz justamente o
contrário, vem no intuito de mostrar que ocultar “verdades”, como a existência
de cartas amorosas entre João Dantas e Anayde, seria o mesmo que “assassinar” a
história da Paraíba. Desse modo, fica claro que há, ainda nos dias atuais,
muitas divergências quando o assunto é a história dessa professora paraibana.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
ABRANTES, Alômia.
Anayde Beiriz e a (re)invenção da “Mulher-macho”. In: ABRANTES, Alômia. Paraíba, Mulher Macho: tessituras de gênero,
(desa)fios da História. (Paraíba, século XX). Recife: UFPE,
2008, pp. 14-114.
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