quarta-feira, 3 de outubro de 2012

RESENHA CRÍTICA

PARAÍBA, MULHER MACHO, TESSITURAS DE GÊNERO, (DESA)FIOS DA HISTÓRIA. 



Alômia Abrantes é Doutora em História, professora adjunta do Departamento de História da Universidade Estadual da Paraíba.Interessa-se, especialmente, pelas análises que envolvem imprensa e imagem. 
Em Anayde Beiriz e a (re)invenção da “Mulher-macho”, primeiro capítulo de Paraíba, Mulher Macho: tessituras de gênero, (desa)fios da História, (Paraíba, século XX), tese apresentada em 2008 ao Curso de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor(a), Alômia Abrantes se propõe a analisar as produções discursivas, tais como músicas e filmes, que de um modo ou de outro tornaram possível a emergência, no decorrer do século XX, da ideia, ou imagem, da “Paraíba, Mulher Macho” como sendo formadora de uma identidade com o Estado e mulheres da Paraíba. Segundo a própria autora seu texto consiste numa “operação narrativa que coloca em cena embates em torno da história, enquanto lócus constituído e constituinte de lugares e imagens de gênero.” (ABRANTES, 2008, p 7) . Assim, temos um destaque à figura de Anayde Beiriz, poetiza e professora paraibana que viveu no início do século XX e que é símbolo dessa expressão “Paraíba, Mulher Macho”. Isso se deve, em grande medida, em virtude da produção de um filme, nos anos 80, com o mesmo título, que narra a vida dessa personalidade.
            De início a autora nos coloca a música Paraíba, composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, de 1950, como sendo uma produção que “marca” a mulher paraibana como “macho”, sendo alvo de muitas críticas ainda hoje. A música se insere num contexto de disputas políticas no Estado, momento de maior visibilidade de sua política. Desse modo, nos diz a autora que isso remete à projeção de signos, que colam, mais intensamente na região e nas mulheres nela nascidas, as marcas da honra, da combatividade e resistência. Ou seja, a mulher paraibana é descrita como guerreira, cheia de coragem, capaz de enfrentar inúmeros problemas como, por exemplo, as grandes secas. Daí a denominação “Paraíba, Mulher Macho”.
            Inspirada na teoria foucaultiana da noção de arqueologia, segunda a qual o saber é domínio privilegiado, Alômia diz que tratar de gênero é pensar em como os espaços masculinos e femininos foram instituídos histórico e culturalmente em diferentes épocas e sociedades. Ademais, é pensar não apenas nos lugares, mas nas subjetivações, nas sujeições que permitem a identificação das pessoas como homens ou mulheres.
            A partir da leitura do texto percebemos que Alômia faz alguns recortes de imagens que entraram em evidência nas últimas décadas do século XX, sobretudo os anos 1980. Assim, ela nos mostra que nesse contexto o cinema, a literatura, a imprensa e a historiografia, passam a investir numa nova encarnação do conceito “mulher-macho”. Ao tratar do filme Paraíba, Mulher Macho, dirigido por Tizuka Yamazaki ela diz que a figura de Anayde Beiriz, uma vez tendo vivido no início do século e morrido em condições dramáticas, além de ser conhecida pela sua postura de vanguarda, por defender direitos para as mulheres e agir na contramão dos ideais normativos da conduta feminina, é redimensionada e tecida ao sabor de novos valores, que vêm se chocar com as visões mais tradicionais da intelectualidade e da política no Estado.
Segundo a autora, o filme dirigido por Tizuka Yamazaki, produzido ainda durante a ditadura militar, é considerado para a época um marco que representa a retomada do cinema brasileiro após longos anos de forte censura. Assim como a música de Luíz Gonzaga, o filme é uma produção que traz à tona a memória dos acontecimentos de 1930 na Paraíba. Entretanto, sua narrativa é um tanto quanto diferente, pois é feita a partir da vida de uma mulher considerada ousada para a sua época, a professora e escritora Anayde Beiriz.
Anayde é tida no filme como sendo personagem principal, mostrada como ocupante de lugares considerados culturalmente como sendo próprios para o masculino da época. Diante disso, do fato de essa mulher ter uma imagem produzida no sentido de aumentar a associação da identidade da mulher e do Estado com a “mulher-macho”, começam a surgir uma série de inquietações e angústias, intensificando o debate sobre os acontecimentos da revolução de 30. Debate esse que dá mais visibilidade a outros signos políticos, principalmente os que instituem e legitimam lugares fixos para homens e mulheres. Assim sendo, Alômia utiliza-se da narrativa do filme para trazer à tona as questões que tornaram possível a intenção de colocar Anayde Beiriz como ícone de um movimento que sua época começava a experimentar. Será, portanto, colocada como “mártir” de uma disputa política na qual não existem evidências de sua participação direta. É tida, também, como heroína de uma revolução dos costumes, como um corpo marcado pela ambivalência de ser um duplo, de ser uma “mulher-macho”. Assim, sendo intensamente inscrita na (re)afirmação de uma imagem identitária, que ao longo do tempo tornou-se um corpo espacial, uma paisagem, a da própria Paraíba.
Vale salientar, contudo, que para muitos historiadores Anayde não é tida como um personagem político. Ela relacionou-se com um homem influente da política paraibana, e só. A título de exemplo a autora cita José Otávio de Arruda e Mello que de acordo com suas pesquisas concluiu que Anayde Beiriz teve pouca, ou quase nenhuma significância, para a revolução de 1930. Ela teria ocupado uma “lateralidade”, o que não permite que ela seja considerada uma personagem política. A justificativa para essa afirmativa seria o fato de na extensa massa documental sobre o movimento não se encontrar quase nada sobre ela.
Interessante, ainda, é fato de a autora olhar o filme dirigido por Tizuka Yamazaki como uma possibilidade de pensar Anayde Beiriz enquanto corpo. Para ela, o primeiro indício disso é o fato de que no cartaz do filme, mais especificamente no logotipo do título, o “M” da palavra “macho” é justamente desenhado como sendo as pernas abertas de uma mulher, supostamente deitada. Aberta para o olhar que a contempla, insinua um convite para uma intimidade ou, ainda, uma publicização da intimidade. Um convite ao corpo que “encarna” a transgressora, a “mulher-macho”, que é tatuada na pele imortalizada da professora. Ela diz:

Em praticamente todas as cenas do filme temos uma Anayde Beiriz corpórea, no sentido em que expressa e procura saciar impulsos e desejos, que lhe parecem prementes, com uma força instintiva, como que livre de dilemas, de apelos morais e hesitações que seriam comuns à sua época. A personagem se entrega a dança, se declara nos poemas que declama, junta-se aos homens e, sobretudo, ama com uma avidez considerada extrema pelos outros que personificam seu tempo. É uma personagem que ri sem discrição e o seu riso parece soar como gritos inconvenientes, como sinal de uma natureza indomada. Numa certa percepção, é como se não “filtrasse” os impulsos e as necessidades corpóreas. Ela sente e, com intensidade, age no fluxo das suas emoções. Neste sentido, na tela, pode-se dizer que ela “queima” (ABRANTES, 2008, p. 33).

            No último sub-item do capítulo, intitulado Anayde e a “encarnação” da verdade (ou quantas vidas pode um corpo que não morreu?), Alômia suscita uma discussão acerca de diferentes vertentes que tratam do que seria e do que não seria verdade em se tratando da figura de Anayde Beiriz. Assim, nos é mostrado, de um lado, o livro João Dantas e Anayde Beiriz: Vidas diferentes, Destinos desiguais, escrito por Maria de Lurdes Luna, e de outro, o artigo Remexendo na História: O “Assanhamento” de Anayde, de Augusto Magalhães. Segundo a autora o livro de Lurdes é uma obra que em certa medida tenta fazer uma defesa de Anayde, discordando de escritos de José Joffily e do filme dirigido por Tizuka Yamazaki, que a colocam enquanto uma mulher assanhada e dotada de comportamentos incomuns à sua época. Já o artigo de Magalhães traz justamente o contrário, vem no intuito de mostrar que ocultar “verdades”, como a existência de cartas amorosas entre João Dantas e Anayde, seria o mesmo que “assassinar” a história da Paraíba. Desse modo, fica claro que há, ainda nos dias atuais, muitas divergências quando o assunto é a história dessa professora paraibana.



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

ABRANTES, Alômia. Anayde Beiriz e a (re)invenção da “Mulher-macho. In: ABRANTES, Alômia. Paraíba, Mulher Macho: tessituras de gênero, (desa)fios da História. (Paraíba, século XX). Recife: UFPE, 2008, pp. 14-114.

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