quarta-feira, 3 de outubro de 2012

INSUMOS DE MODERNIDADE 


A implementação de estradas de ferro, interligando ou aproximando algumas cidades da Paraíba, causou um grande impacto na vida cotidiana das pessoas. Se considerarmos a relação do trem de ferro e dos meios de comunicação como os correios e a imprensa, percebemos uma mudança assinalada pela divulgação de ideias, notícias e uma maior “aproximação” entre as mudanças que ocorriam ao redor do mundo. Com a adequação aos costumes da modernidade, as pessoas passam a esperar ansiosas à chegada do trem para saberem as novidades trazidas por aqueles que chegavam das grandes cidades, os jornais também era um forte veículo de informação. Para as senhoras e senhorinhas, as revistas de moda eram um grande atrativo, pois trazia novidades da última moda em Paris.
Moças e rapazes vestiam-se elegantemente para a chegada do trem de ferro que, para além de satisfazer necessidades especificas, tornou-se um significante da modernidade, um símbolo do novo, percebendo-se “mudanças ali verificadas, sejam as que atingem a paisagem urbana ou o seu próprio ritmo de vida, com o advento de certos insumos modernos” (ARANHA, 2003, p. 100).
O aprimoramento da imprensa, com o intermédio do trem de ferro, fez circular e propagar de forma muito rápida, as ideias e opiniões, houve também a expansão nos campos da publicidade que, por sua vez, fomentavam as atividades comerciais. Não é a toa que muitos anúncios de lojas, tabacarias, livrarias, etc. são encontrados em jornais da época. Contudo, a imprensa não é vista, unicamente, pelo lado informacional, como aponta Batista Aranha (2003), mas também, de alguma forma, pelo lado manipulador, formador de correntes de opinião pública.
Não diferente do trem de ferro, o telefone e o telégrafo representam uma grande mudança cultural e de mentalidade na vida das pessoas, imagine a quebra das “barreiras físicas” possibilitando a conversa de forma instantânea.  Contudo, na Paraíba o serviço telefônico só será conhecido, inicialmente, atrelado ao Telégrafo ou as estações de trem. Contudo, com a instalação das empresas telefônicas, observaram-se mudanças acentuadas, exemplo disso é a maior agilidade nos atendimentos médicos, “agora, o socorro médico pode ser acionado com mais agilidade caso o doente necessite de pronto atendimento da parte clínica interligada ao serviço de telefonia aí existente” (ARANHA, 2003, p. 111). Além de uma revolução nos costumes, a recepção e adaptação desse novo emblema da modernidade causou grande estranhamento e encantamento dos sujeitos em suas experiências inéditas com o aparelho desconhecido.
Ouvir a voz de forma imediata de um amigo ou de um parente que, distante fisicamente, tornava-se presente transmitindo anseios, dores, lástimas, felicidades causava estranheza e admiração ao mesmo tempo. Era surpreendente ser informado de vitórias, tristezas, notícias no momento quase paralelo ao acontecido. Certamente, tanto quanto o trem de ferro, o uso do telefone alterou de forma considerável o cotidiano das pessoas e suas relações de sociabilidade. Imagina-se, por exemplo, que nem todos possuíssem esses aparelhos, mas, obviamente, em casos de necessidade recorria-se a vizinhos, parentes ou amigos próximos para a utilização do telefone. Assim, percebemos que as relações do dia-a-dia sofrem a interferência desse símbolo moderno.
A vinda do trem de ferro trouxe para Campina Grande e Parahyba inúmeras revistas como a Fon Fon, O Malho, Moda Parisiense e Paris Elegante, isso incentivou de forma marcante o modo de se vestir nas cidades paraibanas. Ser moderno passava também pelo vestir-se de acordo com a alta-costura inglesa ou francesa. Modelos a serem seguidos, considerados pertencentes às maiores cidades “civilizadas”, deviam ser copiados a risca para se encaixar nessa leva de moderno.
“Os habitantes não só ‘vestiam’ as cidades de modernidade, mas se ‘vestiam’ também com características que os tornaram urbanos e modernos”. (CHAGAS, 2010, p. 40). Um verdadeiro desfile se via pelas ruas, a imprensa associada à publicidade trazia anúncios das mais variadas lojas e artigos de luxo para encantar, especialmente, as senhoras. Isso, certamente, deu novo impulso no comércio de artigos de luxo. As propagandas, nesse momento, auxiliaram de forma categórica, junto com a facilidade de importação de mercadorias com a maior velocidade do trem de ferro, o comércio das grandes cidades parahybanas.
As influências das grandes cidades conduziam a vestimenta dos sujeitos modernos. Paris e Londres eram amplos difusores da moda, chegando às grandes cidades brasileiras como Rio de Janeiro e Recife e por fim, chegavam às cidades paraibanas. Levando em conta os climas distintos da Europa e do Brasil, é curioso pensar que essas roupas não condiziam com o ambiente tropical das cidades brasileiras. Para simbolizar essa influência, Richard Graham (1973) em seu texto Hábitos urbanos de vida, conta de certo caso peculiar para notar a influência da moda inglesa no rigor da vestimenta “A dobra na parte inferior das calças era copiada da moda inglesa, e contava-se que um brasileiro, vestido na última moda em quentíssima tarde e caçoado por estar com a barra das calças arregaçadas retorquiu: É que não se sabe se estará chovendo em Londres.”




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

CHAGAS, Waldeci Ferreira. Urbanidade, Modernidade e Cotidiano na Parahyba de início do século XX. In: Outras histórias: cultura e poder na Paraíba (1889 – 1930)/ Alômia Abrantes e Martinho Guedes dos Santos Neto (orgs). João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2010.
ARANHA, Gervácio Batista. Seduções do Moderno na Parahyba do Norte: Trem de Ferro, Luz Elétrica e Outras Conquistas Materiais e Simbólicas (1880 – 1925) in: A Paraíba no Império e na República: Estudos de História Social e Cultural. João Pessoa: Idéia, 2003.
GRAHAM, Richard. Hábitos Urbanos de vida in: Grã-Bretanha e o início da modernização no Brasil  1850-1914. São Paulo, Brasiliense, 1973. 






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