INSUMOS DE MODERNIDADE
A
implementação de estradas de ferro, interligando ou aproximando algumas cidades
da Paraíba, causou um grande impacto na vida cotidiana das pessoas. Se
considerarmos a relação do trem de ferro e dos meios de comunicação como os
correios e a imprensa, percebemos uma mudança assinalada pela divulgação de
ideias, notícias e uma maior “aproximação” entre as mudanças que ocorriam ao
redor do mundo. Com a adequação aos costumes da modernidade, as pessoas passam
a esperar ansiosas à chegada do trem para saberem as novidades trazidas por
aqueles que chegavam das grandes cidades, os jornais também era um forte
veículo de informação. Para as senhoras e senhorinhas, as revistas de moda eram
um grande atrativo, pois trazia novidades da última moda em Paris.
Moças
e rapazes vestiam-se elegantemente para a chegada do trem de ferro que, para
além de satisfazer necessidades especificas, tornou-se um significante da
modernidade, um símbolo do novo, percebendo-se “mudanças ali verificadas, sejam
as que atingem a paisagem urbana ou o seu próprio ritmo de vida, com o advento
de certos insumos modernos” (ARANHA, 2003, p. 100).
O
aprimoramento da imprensa, com o intermédio do trem de ferro, fez circular e
propagar de forma muito rápida, as ideias e opiniões, houve também a expansão nos
campos da publicidade que, por sua vez, fomentavam as atividades comerciais. Não
é a toa que muitos anúncios de lojas, tabacarias, livrarias, etc. são
encontrados em jornais da época. Contudo, a imprensa não é vista, unicamente,
pelo lado informacional, como aponta Batista Aranha (2003), mas também, de
alguma forma, pelo lado manipulador, formador de correntes de opinião pública.
Não
diferente do trem de ferro, o telefone e o telégrafo representam uma grande
mudança cultural e de mentalidade na vida das pessoas, imagine a quebra das “barreiras
físicas” possibilitando a conversa de forma instantânea. Contudo, na Paraíba o serviço telefônico só
será conhecido, inicialmente, atrelado ao Telégrafo ou as estações de trem.
Contudo, com a instalação das empresas telefônicas, observaram-se mudanças acentuadas,
exemplo disso é a maior agilidade nos atendimentos médicos, “agora, o socorro
médico pode ser acionado com mais agilidade caso o doente necessite de pronto
atendimento da parte clínica interligada ao serviço de telefonia aí existente”
(ARANHA, 2003, p. 111). Além de uma revolução nos costumes, a recepção e
adaptação desse novo emblema da modernidade causou grande estranhamento e
encantamento dos sujeitos em suas experiências inéditas com o aparelho
desconhecido.
Ouvir
a voz de forma imediata de um amigo ou de um parente que, distante fisicamente,
tornava-se presente transmitindo anseios, dores, lástimas, felicidades causava
estranheza e admiração ao mesmo tempo. Era surpreendente ser informado de
vitórias, tristezas, notícias no momento quase paralelo ao acontecido.
Certamente, tanto quanto o trem de ferro, o uso do telefone alterou de forma
considerável o cotidiano das pessoas e suas relações de sociabilidade.
Imagina-se, por exemplo, que nem todos possuíssem esses aparelhos, mas, obviamente,
em casos de necessidade recorria-se a vizinhos, parentes ou amigos próximos
para a utilização do telefone. Assim, percebemos que as relações do dia-a-dia
sofrem a interferência desse símbolo moderno.
A
vinda do trem de ferro trouxe para Campina Grande e Parahyba inúmeras revistas
como a Fon Fon, O Malho, Moda Parisiense e
Paris Elegante, isso incentivou de forma marcante o modo de
se vestir nas cidades paraibanas. Ser moderno passava também pelo vestir-se de
acordo com a alta-costura inglesa ou francesa. Modelos a serem seguidos, considerados
pertencentes às maiores cidades “civilizadas”, deviam ser copiados a risca para
se encaixar nessa leva de moderno.
“Os
habitantes não só ‘vestiam’ as cidades de modernidade, mas se ‘vestiam’ também
com características que os tornaram urbanos e modernos”. (CHAGAS, 2010, p. 40).
Um verdadeiro desfile se via pelas ruas, a imprensa associada à publicidade
trazia anúncios das mais variadas lojas e artigos de luxo para encantar,
especialmente, as senhoras. Isso, certamente, deu novo impulso no comércio de
artigos de luxo. As propagandas, nesse momento, auxiliaram de forma categórica,
junto com a facilidade de importação de mercadorias com a maior velocidade do
trem de ferro, o comércio das grandes cidades parahybanas.
As
influências das grandes cidades conduziam a vestimenta dos sujeitos modernos.
Paris e Londres eram amplos difusores da moda, chegando às grandes cidades
brasileiras como Rio de Janeiro e Recife e por fim, chegavam às cidades
paraibanas. Levando em conta os climas distintos da Europa e do Brasil, é curioso
pensar que essas roupas não condiziam com o ambiente tropical das cidades
brasileiras. Para simbolizar essa influência, Richard Graham (1973) em seu texto Hábitos urbanos de vida, conta de certo
caso peculiar para notar a influência da moda inglesa no rigor da vestimenta “A
dobra na parte inferior das calças era copiada da moda inglesa, e contava-se
que um brasileiro, vestido na última moda em quentíssima tarde e caçoado por
estar com a barra das calças arregaçadas retorquiu: É que não se sabe se estará
chovendo em Londres.”
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CHAGAS,
Waldeci Ferreira. Urbanidade, Modernidade e Cotidiano na Parahyba de início do
século XX. In: Outras histórias: cultura
e poder na Paraíba (1889 – 1930)/ Alômia Abrantes e Martinho Guedes dos
Santos Neto (orgs). João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2010.
ARANHA,
Gervácio Batista. Seduções do Moderno na Parahyba do Norte: Trem de Ferro, Luz
Elétrica e Outras Conquistas Materiais e Simbólicas (1880 – 1925) in: A Paraíba no Império e na República: Estudos
de História Social e Cultural. João Pessoa: Idéia, 2003.
GRAHAM,
Richard. Hábitos Urbanos de vida in: Grã-Bretanha
e o início da modernização no Brasil
1850-1914. São Paulo, Brasiliense, 1973.

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